
A decisão de narrar as histórias da experiência da luta armada no Brasil foi motivada muito pelo incômodo que sinto com os desvios de compreensão que recobrem esse período histórico. Como participante desse processo de resistência revolucionária, acredito que esses equívocos de entendimento levam a uma mitificação de pessoas e fatos ou mesmo à uma visão deturpada de como era nossa luta e como eram as pessoas que a faziam. Essa compreensão errada da nossa resistência e dos militantes e combatentes envolvidos acaba por levar a visão de que havia imaturidade nas pessoas, de que foi um erro histórico primário ou apenas aventureirismo, como alguns acusaram. Não aceito isso e entendo que é uma obrigação revelar a verdade sobre os fatos e as pessoas envolvidas. O julgamento a partir daí passa a ser com métodos e critérios, não apenas através de aparências deturpadas ou histórias mal contadas.
Se tornou lugar-comum a ideia de que os militantes que participavam da luta armada eram basicamente oriundos do movimento estudantil, de classe média e brancos do centro-sul do país. E que a luta era apenas contra a ditadura militar fascista, desgarrada da luta de classes, sem vínculos com a classe trabalhadora e o povo brasileiro, portanto. Marx, o velho Mouro, teria que estar errado se isso fosse verdade. Participavam e dirigiam a esquerda armada brasileira operários de várias categorias, camponeses de vários estados do país, militares expurgados pela ditadura quando do golpe de Estado ou que saíram das fileiras das forças armadas para aderir à guerrilha urbana e rural. Muitos dos nossos dirigentes eram negros e negras, em geral, das camadas mais empobrecidas do povo trabalhador. Muitas mulheres estavam na linha de frente.
Não levo em conta o que o inimigo diz sobre nós e, menos ainda, o que acham as pessoas que acreditam no que diz o inimigo. Como sempre, creio ser fundamental afirmar que havia um inimigo a ser combatido e que não eram somente adversários políticos. É bom lembrar que esses inimigos queriam nos matar e também nos destruir politicamente. Por causa disso, entendo que é imperioso contar a verdade sobre os fatos, sem exagerar, muito menos abrandar a realidade vivida por homens e mulheres do povo brasileiro que deram suas vidas e suas mortes no combate contra um regime sanguinário e contra o imperialismo dos EUA, dono dessa ditadura fascista.
Entre as pessoas que veem com simpatia a resistência à ditadura militar há aquelas que olham com admiração cega e que não enxergam defeitos. Todo ser humano comete erros. O resultado final para esse tipo de visão acaba por abstrair a realidade e tudo passa a ser um mero detalhe e não consequência da dureza da luta. Por outro lado, há quem romantize o período e mitifique as pessoas envolvidas. Em ambos os casos há uma visão sobre os indivíduos, sem a devida contextualização histórica do processo como totalidade. A intenção de contar essas histórias é mostrar a luta como ela foi, sem retoques ou deturpações. E para mostrar as pessoas como elas eram, que mesmo enfrentando a dureza da clandestinidade se mantiveram humanas e generosas como sempre foram em suas vidas antes da opção pela guerra revolucionária.
Inicialmente, esses Contos Guerrilheiros estariam apenas no campo da ficção histórica, mas narrando a militância e seus combatentes sempre a partir das pessoas reais e dos fatos verdadeiros. Contudo, conforme companheiros e companheiras começavam a ler os textos, passaram a fazer uma cobrança para que eu contasse com realismo e sem rodeios as histórias que vivi e sobre as pessoas que conheci. No começo, resisti. Mas, depois achei interessante mostrar de perto as pessoas que todos conhecem e reverenciam. Me pareceu um bom modo de humanizar lendas e revelar todo o afeto existente entre quem tinha a dura tarefa de resistir à uma ditadura cruel e impiedosa, dirigida por um imperialismo ainda mais cruel e impiedoso. Era uma luta desigual e muito difícil. Mas, era uma luta necessária.
Tudo que está escrito nessas Memórias da luta armada no Brasil é a mais absoluta verdade, mesmo que em alguns momentos tenha sido obrigado a misturar texto ficcional e alegorias poéticas para melhor contar como a história verdadeira se passou. Quando não coloco nomes nas histórias é ficção usada para contar a realidade de como era a vida em clandestinidade, que serve para as organizações armadas e também para as que não optaram por essa via. Portanto, uso a ficção para auxiliar na redação de histórias absolutamente verdadeiras, muitas vezes por não termos testemunhas ou documentos disponíveis. Para essa tarefa, uso minha experiência pessoal e a de camaradas desse período para fazer essas memórias necessárias.
As histórias em que aparecem o personagem Teobaldo são as que vivi, pois esse era o meu nome de guerra como combatente do Movimento Revolucionário Tiradentes, o MRT. Assim, conto as histórias vividas por mim como de fato aconteceram. Todos os nomes de guerra usados são os que os militantes usavam naquela época. Faço isso por entender que nossos nomes de guerra não nos pertencem e, portanto, pertencem à história.
Em algumas histórias deste trabalho, contei como era a vida do comandante Carlos Lamarca, que morou em minha casa durante alguns meses. Enquanto escrevia percebi que estava dando vida outra vez ao grande revolucionário e mostrando ao que ele se submeteu para continuar a luta. Acho que assim faço justiça com essa figura extraordinária, que tenho grande orgulho de ter conhecido e com quem aprendi muito. Toda a singeleza desse homem extraordinário e toda a delicadeza dele para com as outras pessoas era sua marca. E eu, com apenas quinze anos de idade, era tratado com todo o respeito e carinho por ele. Uma figura fantástica que tive a honra de conhecer e conviver.
Espero ter conseguido mostrar quem eram e como eram nossas companheiras valorosas, que endureceram na luta, mas nunca perderam a ternura ou a delicadeza originais de suas vidas. Eram combatentes corajosas, companheiras firmes e leais, que nunca vacilaram. Juntei as memórias de várias dessas mulheres para melhor mostrar como eram elas na vida diária e sofrida da militância armada. Preservei a identidade dessas mulheres fantásticas em Vendo a queda, Triste comunicação e A justiça para garantir sua segurança e integridade pessoais. Estão vivas e continuam na luta.
Os personagens Ruth e Roque, que aparecem em várias histórias contadas neste trabalho são na realidade minha mãe, a professora Fanny Akselrud de Seixas, e meu pai, o operário mecânico Joaquim Alencar de Seixas. Todo o carinho de minha mãe com o comandante Carlos Lamarca era verdadeiro e ele sempre fez questão de ressaltar. Ele entregou sua vida em nossas mãos, pois vivia em nossa casa e tudo deveria ser preservado e feito para garantir algum conforto para ele. Aqueles cuidados com nossos companheiros que a personagem Ruth mostra na história O carro-forte é exatamente como minha mãe era. Resolvi escrever um texto sobre ela em A guerreira Ruth, pois seu comportamento frente ao inimigo foi exemplar. Tenho muito orgulho dela. A antiga militante comunista sabia da importância da nossa luta e mostrava isso sempre.
No conto Identidade tentei mostrar como era difícil o uso de tantos nomes que os militantes eram obrigados a utilizar para sobreviver na clandestinidade. Havia o nome verdadeiro, que não podia ser conhecido dos demais, e havia os nomes de guerra usados na militância clandestina para esconder o nome verdadeiro, além também dos nomes “frios” usados nas identidades falsas que permitiam aos combatentes viver e até apresentarem se fossem parados numa batida policial, para alugar uma casa ou comprar um carro para sua Organização. A vida clandestina exigia isso das pessoas dedicadas à militância revolucionária. Mas, as vezes era confuso mesmo.
De forma muito natural, comecei a refazer memórias em que alguns personagens fundamentais da nossa luta surgem em sua verdadeira dimensão humana. Meus queridos amigos e companheiros Henrique e Clemente são uma constante nessas histórias, pois foram marcantes comandantes guerrilheiros e generosos militantes, que me ensinaram muito.
O comandante Henrique, do MRT, era na verdade o operário metalúrgico Devanir José de Carvalho, que me deu uma nova dimensão ao meu orgulho em pertencer à classe operária. Minha compreensão de mundo passada por meus pais, foram completadas por minhas conversas com ele, os conselhos militantes e os elogios incentivadores que ele fazia. Era como um irmão mais velho. Sua companheira, Dina, a operária Pedrina de Carvalho, e seus filhos Carlos e Ernesto são parte de minha família. Para mim, até hoje eles são Dina, Carlinhos e Ernestinho. Figuras maravilhosas, que completam a magnífica figura de Henrique, meu comandante. Rei, o tipógrafo Dimas Antônio Casemiro, dirigente do MRT e um dos grandes combatentes da esquerda armada no país, é também uma presença marcante nestas memórias.
O outro personagem que retratei com o máximo de justiça que me foi possível foi meu querido amigo e companheiro Clemente. Em realidade, era Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, um jovem revolucionário de grande valor, que em muitos momentos se confundia comigo pela semelhança física e juventude. Tínhamos apenas três anos de diferença e isso nos aproximava e nos distanciava, ao mesmo tempo. Na história Tomada de fábrica conto que os jornais juntaram nossas duas figuras em uma só. Isso é real e verdadeiro. O inimigo divulgou nos jornais como se fôssemos uma só pessoa, mas que estavam em duas situações distintas e em lugares diferentes durante a ação da tomada da fábrica Mangels, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Em Reflexão difícil conto um pouco de como ele era e como encarava a vida e a morte devido à sua militância. O diálogo que tive com Henrique sobre a atitude desafiadora de Clemente de deixar suas impressões digitais como uma assinatura é absolutamente verdadeiro. E os elogios do meu comandante a ele também são verdadeiros e foram muito sinceros.
Outra figura extraordinária que conheci e retrato com seu verdadeiro nome é o operário de telefonia Yoshitane Fujimori, que para nós era o Japa. Sempre sorridente e com uma palavra de carinho ou estímulo aos seus companheiros de luta, ele encantava qualquer um com sua simpatia e delicadeza. Era um combatente firme, com uma pontaria perfeita, segundo Carlos Lamarca, e de uma generosidade sem igual. Eu fiz questão de colocar seu nome verdadeiro para fazer justiça ao nosso querido companheiro, que nem sempre é lembrado devidamente e com o respeito que merece.
Em todos os textos em que relato as cenas de tortura tento passar a ideia de que é absolutamente falsa a visão de que a tortura é infalível e invencível. Todos os que morreram sem falar nada, como meu pai, Bacuri e Henrique, por exemplo, provam isso. Mas, os que sobreviveram à tortura, por conseguirem driblar os torturadores e não colaborarem com o inimigo, provam que a tortura foi vencida. A humanidade vence a barbárie com a firmeza revolucionária.
Na história final deste trabalho conto a história de nosso Reencontro e reconstrução, quando Clemente voltou do exílio e me procurou. O que retrato nessa história é totalmente verdadeiro e me deixou muito emocionado ao escrevê-la, pois me trouxe lembranças muito fortes desse querido companheiro. Com essas memórias tento fazer justiça com esse meu irmão de luta e, ao mesmo tempo, também retratar toda a nossa saudade, minha e dele, de tantas outras companheiras e companheiros, que ficaram pelo caminho abatidos pelo inimigo. E, principalmente a nossa tristeza pela perda de camaradas que foram fundamentais para a resistência contra a ditadura militar.
Perdemos Clemente recentemente para uma doença que o matou, fazendo o que o inimigo fardado não conseguiu. Ele era mais um de nós, mas era uma figura muito especial.
Espero sinceramente que fique bem claro que a opção pela via da luta armada não foi aleatória, muito menos fruto de decisões pessoais desse ou daquele dirigente iluminado. Mais ainda, que não foi decisão precipitada de jovens imaturos. Pelo contrário. Com certeza, foi uma decisão coletiva, tomada décadas antes e alimentada pela certeza de que era a única possibilidade lógica de derrubada do regime e da tomada do poder pela classe trabalhadora. E, também com certeza, foi a primeira tentativa efetiva que teve como objetivos a libertação nacional e o socialismo depois do Levante Comunista de 1935. O que iguala as duas experiências é a objetividade da necessidade de o povo tomar o poder das mãos de uma classe dominante opressora e exploradora, sem negociações, sem conciliação e, principalmente, norteadas pela estratégia revolucionária do marxismo-leninismo.
Ao contar o cotidiano da luta armada contra a ditadura a intenção é lembrar que sempre existiu e sempre existirá luta de classes. E que, portanto, a classe trabalhadora tem um inimigo definido, que é determinado a destruir a organização popular e sua força para exigir direitos e uma vida digna. Esse inimigo é a burguesia, a classe dominante e seu Estado repressor, que tem as forças armadas como seu instrumento de guerra, treinado e sempre pronto para executar a tarefa de reprimir e massacrar o povo trabalhador organizado. Quando se entende a classe dominante como o verdadeiro inimigo deixa-se de acreditar em antagonismos pontuais ou circunstanciais, que cega e desvia a atenção para questões de forma e não de conteúdo.
Uma coisa é importante destacar. A experiência das décadas de 1960 e 1970 nos ensinou que não há mais apenas a burguesia local como inimigo, mas também o sistema de dominação imperialista, que submete e controla todas as classes dominantes nacionais. Não há mais como separar as débeis burguesias dependentes do imperialismo, como é o caso das lumpemburguesias na América Latina que se converteram em meras serviçais dos EUA. Essa unidade do sistema imperialista fez o inimigo da classe trabalhadora se militarizar, desenvolvendo a repressão como guerra militar e com uma força desproporcional em relação à histórica luta de classes travada em nossos países. A instalação de ditaduras, através do controle do Estado diretamente pelo aparato militar a serviço da exploração capitalista, é o marco histórico dessa unidade entre as burguesias nacionais e o imperialismo. As forças armadas sempre estiveram presentes em nossos países como instrumento de repressão às lutas, mas nunca antes tão abertamente.
Tudo isso impôs a via armada como o caminho natural para a esquerda revolucionária. Quando houve o assalto ao poder e aos cofres públicos pelos militares fascistas, em 1964, foi feita uma declaração de guerra aberta pelo imperialismo. E a esquerda apenas reagiu a isso. A visão da direção do Partido Comunista Brasileiro na época, de que qualquer tentativa de golpe seria desmontada por um suposto esquema militar democrático, se mostrou apenas uma grande ilusão e uma tremenda fanfarronada. Segundo essa ilusão, os militares nacionalistas e legalistas iriam defender as instituições e espaços democráticos onde a esquerda deveria atuar. Não houve nenhuma orientação para resistência ao golpe de Estado e, menos ainda, para resistir à ditadura que seria implantada. A parcela revolucionária da esquerda se dedicou, então, a se reorganizar e tentar responder à guerra reacionária. Isso explica a enorme quantidade de organizações que surgiram e a dificuldade em se ter unidade na ação. Essa tarefa de reorganização foi feita sob a repressão da ditadura militar, e a esquerda tinha que se proteger e, ao mesmo tempo, se reorganizar.
As organizações da esquerda armada tinham consciência de que sua ação era reativa e que tudo aconteceria nas cidades, com a perspectiva de um dia organizar a guerrilha rural. A dificuldade em travar discussões ao mesmo tempo em que era necessário sobreviver à dura repressão empreendida pelos militares no poder levou à improvisação de uma nova modalidade de luta revolucionária, que se travava apenas nas cidades. A perspectiva de levar a luta ao campo se mostrava apenas uma intenção. A guerrilha urbana se resumiu a fustigar o inimigo e ter que suportar as consequências dessa ação. Nas histórias Iniciação, A base e Propaganda das armas tento mostrar o tipo de ação feita pela luta armada com essa preocupação de fustigar e mostrar que a resistência era possível.
Renegar essa experiência sem refletir sobre o papel histórico das pessoas dedicadas à essa luta é desconsiderar a própria história. Com todas as dificuldades e todo o sangue derramado pelas mulheres e homens que deram suas vidas e suas mortes, fazer a resistência à ditadura militar no Brasil foi um combate necessário. Me orgulho muito em ter participado dessa luta e muito me honra ter conhecido pessoas tão gigantescas como as minhas companheiras e companheiros de luta armada. Para se fazer justiça com essas pessoas que escrevi esse trabalho. Espero ter conseguido.
A luta pela libertação de nosso povo e do nosso país, continua!
Por Ivan Seixas, jornalista, um dos fundadores do Núcleo de Preservação da Memória Política, ex-coordenador do projeto Direito à Memória e à Verdade e autor de Contos Guerrilheiros – Memórias da luta armada no Brasil.