
Artigo publicado como apresentação do livro Pensamento Marighella – Volume II (320 págs; 2025), escrito originalmente em 2021 para nossa edição anterior (Minimanual do Guerrilheiro Urbano e Textos da ALN, 2021) e revisado em 2025 para a edição atual.
Em mensagem enviada às embaixadas norte-americanas no Rio de Janeiro e em Brasília em outubro de 1968, logo após o justiçamento do capitão do exército norte-americano e agente da CIA, Charles Rodney Chandler, que treinava torturadores para a ditadura militar fascista no Brasil, por um comando conjunto da organização que viria a ser batizada como Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o governo dos EUA, que já estava em alerta devido à explosão de uma bomba no Consulado-Geral americano em São Paulo em março daquele ano, oferecia uma recompensa de 5 mil dólares por informações que levassem à captura de Carlos Marighella e “seu bando”, algo em torno de 20 mil cruzeiros novos na época, que hoje em valor corrigido, equivaleria a cerca de 250 mil reais. Em 1973, a recompensa pelo Comandante Clemente, Carlos Eugênio da Paz, o último comandante militar da ALN, era de 1 milhão de dólares. A captura e morte de Clemente era questão de honra para o regime fâmulo do imperialismo. Não conseguiu. Retirado do país pela organização, Carlos Eugênio sairia pela Argentina, passaria por Cuba, União Soviética e Tchecoslováquia, até se exilar na França. Anistiado em 1982, Clemente sobreviveu, retornou ao país e se tornou um dos principais narradores da experiência revolucionária da ALN através de livros e depoimentos, até a sua morte em 29 de junho de 2019.
A trajetória política da Ação Libertadora Nacional, principal organização revolucionária armada que enfrentou a ditadura militar brasileira, é apresentada aqui por seus próprios protagonistas e combatentes, através de documentos, entrevistas, artigos e textos, até então inéditos em sua grande maioria no Brasil.
Do assassinato de Marquito, Marco Antônio Brás de Carvalho, o guerrilheiro operário, em 28 de janeiro de 1969 pela organização paramilitar fascista Comando de Caça aos Comunistas (CCC), primeiro comandante militar de um Grupo Tático Armado (GTA) da organização e metalúrgico que participou da famosa ação de tomada do palanque dos pelegos e expulsou o governador Abreu Sodré do 1º de Maio de 1968 na Praça da Sé, em São Paulo, até o martírio bárbaro do Comandante Crioulo, Luiz José da Cunha, em 13 de julho de 1973, último dirigente político nacional da ALN, preso em uma emboscada do DOI-CODI, torturado até a morte e enterrado como indigente na Vala de Perus, a Ação Libertadora Nacional experimentou seu auge como organização revolucionária armada e sua completa destruição pelos organismos da repressão, construindo e desenvolvendo uma teoria e estratégia próprias da revolução brasileira e do caminho até o socialismo no país, que chamamos de Pensamento Marighella, e como batizamos esta série e nossa coleção que recupera o conjunto da produção político-teórica da Ação Libertadora Nacional.
Neste segundo volume de Pensamento Marighella, que abrimos – retomando a linha histórico-temporal da obra de Carlos Marighella do primeiro tomo da série – com a versão original e recuperada do mítico Minimanual do Guerrilheiro Urbano, de junho de 1969, estão presentes também todos os seus demais textos, até sua última entrevista em novembro de 1969. Na segunda parte do livro, com a ALN atingida pelo assassinato do seu fundador e líder máximo em 4 de novembro de 1969, mas seguindo heroicamente em combate, apresentamos um conjunto de textos e documentos de Joaquim Câmara Ferreira, o Velho. Na terceira e última parte, com a queda do Comandante Toledo em 23 de outubro de 1970 e a ALN reorganizada, apresentamos uma série de documentos e artigos da Ação Libertadora Nacional, assinados principalmente por sua Coordenação Nacional e publicados em seu órgão central, o jornal O Guerrilheiro, cobrindo o período da última fase da organização até o ano de 1973, um pouco antes da ALN ser finalmente destroçada no início de 1974 pela repressão sanguinária da ditadura militar, auxiliada pelo imperialismo norte-americano e com o suporte do empresariado brasileiro.
Os dois volumes de Pensamento Marighella cobrem um período entre 1966 e 1973, a partir do processo de radicalização e ruptura da “Ala Marighella” com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), formação do Agrupamento Comunista de São Paulo e sua transformação em Ação Libertadora Nacional, até o fim da organização com a queda da sua última direção no primeiro semestre de 1974, totalizando mais de 70 documentos recuperados. As publicações se inserem no trabalho mais amplo de pesquisa, recuperação historiográfica e publicação de obras da Coleção Pensamento Marighella, que ultrapassam duas centenas de documentos inventariados para os diversos livros da coleção.
Para o trabalho de pesquisa e recuperação de artigos, periódicos e documentos políticos utilizamos como fontes principais o arquivo do Projeto Brasil: Nunca Mais (BNM), fundamental iniciativa de memória das lutas sociais durante a ditadura no Brasil, mantido pela Arquidiocese de São Paulo, e o arquivo do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), além dos acervos do Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa (CEMAP/Unesp), do Archivio Storico de Movimento Operaio Brasiliano (ASMOB), também vinculado à Unesp, além de outras fontes secundárias como o arquivo do projeto DHnet – Rede Direitos Humanos e Cultura, o Centro de Documentación de los Movimientos Armados (CeDeMA) e o Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas (CeDInCI).
Parte dos textos inéditos que apresentamos aqui foram publicados no exterior ainda no final dos anos 1960 e início de 1970, com traduções principalmente em francês, espanhol, inglês, italiano e alemão, caso da coletânea de textos Guerriglia urbana in Brasile, publicada na Itália ainda em 1968, do livro Pour la libération du Brésil, antologia política de Carlos Marighella organizada pelo jornalista franco-belga Conrad Detrez, publicado na França em 1969/70 e que ganhou uma edição inglesa em 1971, Acción libertadora, livro da F. Maspero em espanhol, mas também publicado na França em 1970, mesmo ano em que os textos de Marighella aparecem em alemão com a publicação do Handbook des Stadtguerillero pela Fração do Exército Vermelho (RAF), Teoría y acción revolucionarias, outra coletânea em espanhol do Editorial Diogenes, publicada no México em 1971, a edição Escritos de Marighella, la guerrilla en Brasil, publicada no Chile em 1971 pela Prensa Latinoamericana e o livro Manual do guerrilheiro urbano e outros textos da editora portuguesa Assírio & Alvim, publicado em 1974, além de edições especiais da revista cubana Pensamiento Crítico, da Tricontinental (que publicou também o livro em espanhol “Carlos Marighella”, em 1970, em Cuba), da chilena Punto Final e de Les Temps Modernes, publicação francesa dirigida por Jean-Paul Sartre.
O desconhecimento de boa parte dos textos originais de Marighella e da produção teórico-política da ALN no Brasil não é um acaso. O revolucionário baiano, alçado à condição de “inimigo número um” da ditadura militar-empresarial, e a organização que fundou junto com milhares de combatentes e simpatizantes no Brasil, são referências políticas revolucionárias reconhecidas em todo o mundo, mas que foram mitologizadas ou abjuradas pela esquerda brasileira. Mesmo existindo algumas importantes pesquisas e obras, e que merecerem destaque o livro “Escritos de Carlos Marighella” do Editorial Livramento publicado em 1979, “Carlos, a face oculta de Marighella”, pesquisa de Edson Teixeira de 1999, publicada em livro pela Expressão Popular em 2009, a fundamental biografia “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” (2012) de Mário Magalhães, o projeto “Rádio Libertadora, a palavra de Carlos Marighella” (2012) organizado por Iara Xavier e a pesquisa publicada em livro “Mulheres na luta armada: protagonismo feminino na ALN” (2018) de Maria Cláudia Badan, além das quase desconhecidas memórias de seus combatentes como os livros “Viagem à luta armada” (1996) e “Nas trilhas da ALN” (1997) de Carlos Eugênio da Paz, o pensamento vivo de Carlos Marighella e a estratégia revolucionária e socialista da ALN historicamente nunca interessaram aos setores hegemônicos de uma esquerda que foi dominada e domesticada pelo reformismo, pelo liberalismo, pela conciliação com o inimigo, e finalmente, pelo transformismo, conceito utilizado pelo sardo Antonio Gramsci para descrever a traição de classe. Tomamos, portanto, como tarefa política e editorial refazer o caminho e intencionar a atualidade da contribuição fundamental ao pensamento revolucionário brasileiro que é a produção teórica e a formulação política corporificada pela Ação Libertadora Nacional durante a guerra revolucionária iniciada contra a ditadura dos gorilas serviçais do imperialismo norte-americano.

A ALN, que se apresenta publicamente com esse nome apenas em janeiro de 1969, foi fundada ainda como um embrião em um ato simbólico, e simplório devido às condições, em março de 1968, no bairro do Sumaré, na cidade de São Paulo, na casa do ex-deputado socialista Jéthero de Faria Cardoso, e contou com a presença de Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Cícero Silveira Viana, Rafael Martinelli, Osvaldo Lourenço, Farid Helou, João Adolfo Castro, Agonalto Pacheco e Rolando Frati. Estima-se que a saída de Marighella e outros dirigentes do PCB teria mobilizado pelo menos 8 mil militantes no país, sendo boa parte destes identificados com a “Ala Marighella” e que dariam origem ao Agrupamento Comunista de São Paulo, de um total de cerca de 40 mil comunistas que formavam o PCB naquela época. Após uma tentativa frustrada de unificação das dissidências através da chamada “Corrente Revolucionária” uma parte optaria por formar o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) com Mário Alves, Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender à frente, enquanto as dissidências internas também sairiam para dar origem a diversas organizações como o Partido Operário Comunista (POC) no Rio Grande do Sul (em uma fusão com um setor da Organização Revolucionária Marxista – Política Operária, a POLOP), o Comando de Libertação Nacional (COLINA), aderindo ao racha da POLOP em Minas Gerais e junto ao antigo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), além do primeiro MR-8, formado a partir da dissidência do Rio de Janeiro, e de adesões à VPR em São Paulo, com o Partidão perdendo cerca da metade da sua militância, que optou por formas diversas de luta armada, como já havia feito o PCdoB, fundado em 1962, e com a ala do PCB liderada por Luís Carlos Prestes, Giocondo Dias, Dinarco Reis e outros, que consumou um golpe burocrático no VI Congresso do partido em dezembro de 1967, permanecendo em sua defesa do pacifismo diante da ditadura, de um reformismo covarde e da frente ampla à reboque da burguesia.
Após a peregrinação organizacional de Marighella pelo país em 1968, o Agrupamento Comunista de São Paulo se transforma na Ação Libertadora Nacional, que em seu auge, na segunda metade de 1969, e mesmo na pior fase da repressão, estima-se que tivesse cerca de 3 mil militantes entre seus setores de apoio, simpatizantes e bases nas diversas frentes da organização, com centenas de combatentes com formação político-militar em todas as regiões do país. A forma de atuação clandestina da ALN e a lógica compartimentada não permitem chegar em números exatos, com relatos diversos sobre a quantidade de apoiadores e integrantes da organização, que compunham seu setor militar e logístico no Grupo de Trabalho Estratégico, responsável pelo planejamento da guerrilha rural, nos GTAs, os Grupos Táticos Armados, responsáveis pelas ações armadas nas cidades, ou no setor político e de massas, nos grupos de ação, que faziam o trabalho de massas da Frente de Trabalho Político, e nos grupos independentes, que formaram a Rede Logística de Apoio. Essa estrutura organizacional foi se modificando devido às necessidades da luta, baixas e quedas provocadas pela brutal repressão, sendo cada vez mais reduzida e voltada quase que exclusivamente para as ações armadas da Frente Guerrilheira até 1973, quando a ALN possuía entre 500 e 300 quadros e combatentes no país, boa parte concentrada em São Paulo, além de centenas de militantes presos, e muitos exilados, mortos ou desaparecidos. Entre os muitos simpatizantes da ALN no Brasil, estavam personalidades como a atriz Norma Bengell, o fundador do teatro do oprimido Augusto Boal, o cineasta Glauber Rocha, o tropicalista Caetano Veloso e um jovem que se tornaria o maior fotógrafo documental do mundo, Sebastião Salgado.
Cabe destacar também dois elementos importantes na ALN. Primeiro a presença das mulheres não apenas com função de apoio logístico, mas também nas ações armadas, sendo inclusive uma das exigências de Marighella no acordo de apoio e cooperação com Cuba, onde exigiu a participação das mulheres da ALN no treinamento de guerrilha rural, e o segundo, o perfil de classe da organização, muito representativo da formação social do povo brasileiro, que apesar de um considerável número de militantes provenientes das lutas estudantis e de trabalhadores intelectuais, tinha uma forte presença operária, além de ter sido ser fundada por um mulato baiano e ter como seu último líder político e comandante o negro pernambucano Luiz José da Cunha.
A ALN não deu início ao processo de luta armada contra a ditadura no Brasil, iniciativas de resistência armada eram gestadas ainda no interior do PCB e também surgiram um pouco antes, como no primeiro Movimento Revolucionário Tiradentes, como braço das Ligas Camponesas, e logo após o golpe militar de 1964 com o brizolista MNR, mas foi o volume de ações, o tamanho e a influência da organização, além da relação prioritária com Cuba, que fizeram da Ação Libertadora Nacional a principal organização guerrilheira no país, constatação essa, que não faz de menor valor e importância as demais organizações e experiências de resistência revolucionária, com destaque para as Forças Guerrilheiras do Araguaia, as FOGUERA, impulsionadas pelo PCdoB com linha maoísta e composta por valorosos revolucionários, entre eles Maurício Grabois, Helenira Resende, Pedro Pomar, Ângelo Arroyo, Dinalva Oliveira e Osvaldo Orlando da Costa, o guerrilheiro invencível Osvaldão, que teve seu processo de preparação iniciado em 1967 e sua destruição completa pela repressão em 1974, mas também organizações armadas que formariam com a ALN a “Frente Armada Revolucionária”, uma coordenação revolucionária nacional que reunia o segundo MRT, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e o PCBR, cujo “Manifesto contra a Farsa Eleitoral” de 1970, que encontra-se neste livro, é assinado por esta frente de organizações revolucionárias.
Nos textos que seguem neste livro, como prossecução da ordem cronológica iniciada no primeiro volume, Marighella fundamenta – em sua elaboração teórica como produto de uma prática revolucionária coletiva – uma estratégia, as táticas e os princípios da ALN, rompendo não apenas com o pacifismo e o colaboracionismo do PCB, mas também com o teoricismo e o burocratismo típicos da esquerda brasileira. O revolucionário soteropolitano propõe a ação revolucionária como elemento primordial da organização de novo tipo, onde não existe uma contradição entre a linha político-militar e a linha de massas, pelo contrário, elas necessariamente devem se complementar em uma estratégia revolucionária que tem por base a aliança operária-camponesa, com o apoio de setores médios urbanos radicalizados, sendo iniciada pela atuação tática e intensa de pequenos grupos armados, compartimentados e com liberdade de ação nas grandes cidades, com centralidade no triângulo econômico e burocrático-militar do regime – Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte – para debilitar e desmoralizar o sistema de repressão da ditadura e da dominação imperialista norte-americano no país, com a guerrilha urbana realizando ataques relâmpagos e evitando os choques diretos com as forças de repressão, completando a luta armada com ações de agitação e propaganda e o trabalho político de mobilização operária e estudantil, recrutamento e formação política e militar de quadros. Após os textos de Marighella e sua última entrevista concedida para a revista francesa Front, publicada já após sua morte em 4 de novembro de 1969, seguem-se a entrevista e os textos inéditos e recuperados de Joaquim Câmara Ferreira, onde é possível constatar o esforço da ALN em desenvolver a linha estratégica proposta por seu fundador e levá-la às últimas consequências, com a organização mesmo enfrentando crises internas após a queda do Velho em 23 de outubro de 1970, batalhando pela coerência do seu programa revolucionário e pela centralidade da luta guerrilheira imposta pelas condições da realidade brasileira, como reafirmam os documentos assinados pela Coordenação Nacional até o fim da heroica e combativa experiência histórica da Ação Libertadora Nacional.
A ALN deu seguimento e aperfeiçoou o pensamento formulado por Marighella e reafirmado por Toledo, quando este assumiu a condição de dirigente máximo da organização. Os combatentes da ALN deviam convencer também pelo exemplo, demonstrando decisão, firmeza e determinação, para comprovar na prática a viabilidade e a necessidade da luta armada contra a ditadura, com relativa autonomia para os grupos de fogo da organização, que deveriam abrir caminho com a guerrilha urbana para as colunas móveis da guerrilha rural, como segundo degrau da guerra revolucionária, até a formação de um exército revolucionário de libertação, a criação das condições de tomada do poder pelo povo armado e a formação de um governo popular revolucionário, processo este que não seria dirigido apenas pela ALN, pois a organização negava a visão sectária da condição de vanguarda autoeleita e sempre foi vista por seus próprios militantes como uma etapa organizacional provisória, que deveria avançar segundo as condições impostas pela luta de classes e pela guerra revolucionária.
A queda de Virgílio Gomes da Silva, Jonas, em 29 de setembro de 1969, logo após comandar o sequestro do embaixador norte-americano na ação conjunta com a DI-GB (a Dissidência Interna da Guanabara, que viria a partir dessa ação reivindicar o nome do antigo MR-8) e a emboscada montada a partir da prisão e tortura dos freis dominicanos da base da ALN que levaram ao assassinato de Marighella, frustraram o início da guerrilha rural. A coluna guerrilheira no campo, que tinha sua logística pronta e era vista pela ALN como segunda etapa da guerra revolucionária, iria ser iniciada ainda no fim de 1969 na região entre o sul do Pará e Goiás, cabendo destacar o importante papel militante de Zilda Xavier na logística da ALN. Antes da sua morte, Marighella se preparava para uma viagem ao Mato Grosso com a mesma tarefa de preparação da área estratégica. O planejamento, em parte perdido, seria assumido por Toledo com a reestruturação da ALN, mas agora a perspectiva da guerrilha rural seria compartilhada com as organizações que se coordenavam na Frente Armada e partilhavam a perspectiva estratégica da necessidade de iniciar a luta armada no campo. O comando militar da iniciativa rural estaria agora com o capitão Carlos Lamarca, comandante da VPR reconstruída, após o racha na VAR-Palmares que havia fundido a VPR e o ex-COLINA.
Marighella e Lamarca, e por sua vez a ALN e a VPR, tiveram uma relação marcada pela solidariedade e pelo conflito. Marighella havia intermediado a retirada da família de Lamarca do país, que seguiu para Cuba. Em janeiro de 1969 a célula da VPR baseada no Quartel de Quitaúna (SP) teria que realizar com urgência a ação de expropriação de armas, pois alguns dirigentes da VPR envolvidos na ação haviam sido presos na preparação do caminhão que tiraria cerca de 400 fuzis, metralhadoras, morteiros e munição do 4º Regimento de Infantaria. A VPR, sob o comando do ex-sargento Onofre Pinto, o Ari, que havia vencido a disputa interna na organização entre o setor intelectualizado e o mais ávido pelas ações armadas, preparava um plano audacioso, batizado inversamente à data histórica de “Noite de São Bartolomeu”. Em 26 de janeiro de 1969, Lamarca, o sargento Darcy Rodrigues e outros ex-militares da VPR realizariam a grande ação de expropriação de armas, enquanto outros comandos guerrilheiros bombardeariam o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, e o Quartel-General do II Exército, no bairro do Ibirapuera. A Academia Militar de Polícia iria desmoronar com a explosão de cem quilos de dinamite e o Campo de Marte seria ocupado por outro comando para controlar e confundir o sistema aéreo paulista. Em seguida, os guerrilheiros da VPR rumariam para o campo com a tarefa de iniciar a formação da coluna de guerrilha rural.
Marighella apresentou profunda divergência ao plano da VPR, que tinha como objetivo criar um clima de guerra civil e avançar ainda mais na militarização da situação política do país, em consonância com a lógica guevarista da dialética da ação e repressão. O recuo da ALN e a queda de quadros da VPR antecipou a deserção de Lamarca para o dia 24 de janeiro, com menos de 1/5 do arsenal planejado. Fortemente abalada pelas quedas, prisões e delações, a VPR nem mesmo teria uma estrutura para a nova condição de clandestinidade de Lamarca, que coube a outra organização, o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). As armas conseguidas na ação de urgência ficariam sob a guarda da ALN, e apenas após mediações de Toledo, Marighella concordou em ceder metade do arsenal à VPR. Não sem motivos, pois Marquito, comandante militar do GTA havia caído por conta das prisões e delações de militantes da VPR. Marighella sempre mantivera um certo nível de desconfiança em relação à ex-militares, o que explica em parte a ida de Lamarca para a VPR e não para a ALN. Sua desconfiança irá, mais tarde, se confirmar de forma trágica para a VPR, com o episódio do agente duplo “cabo Anselmo” e o Massacre da Granja São Bento, ocorrido em janeiro de 1973, e que vitimou seis dirigentes da organização, incluindo a guerrilheira Soledad Barret, a “heroína de três pátrias”.
O debate sobre o papel estratégico da guerrilha rural como a etapa a ser atingida foi de certa forma consensual entre as organizações revolucionárias brasileiras, mesmo que a prática concreta fosse de ações armadas nas cidades, que garantiam também a sobrevivência de centenas de militantes clandestinos. Essa linha estratégica tinha, além da análise da realidade feita pelas organizações, uma influência decisiva da Revolução Cubana por um lado, nas organizações da “Frente Armada”, e por outro, do maoísmo no PCdoB e no processo do Araguaia. No caso das formulações de Marighella, pesaram também suas vivências na China e depois em Cuba, além da luta política anterior ainda dentro do PCB e a influência de Ho Chi Minh e da luta de libertação vietnamita, ao lado do pensamento de Mao Zedong e de sua decisiva orientação castroguevarista.
Nesse sentido, é interessante a pergunta do jornalista cubano feita para Joaquim Câmara Ferreira na entrevista publicada por Prensa Latina e Pensamiento Crítico, que também inserimos neste livro. Dando o exemplo da eficácia da guerrilha urbana como linha estratégica e citando especificamente o caso do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) no Uruguai, o entrevistador pergunta para Toledo por que a ALN e outras organizações brasileiras insistem sobre o papel estratégico da guerrilha rural em detrimento da função apenas tática da guerrilha urbana, e em que pese as grandes diferenças entre o Brasil e o Uruguai naquele momento, é uma indagação importante.
Sem a intenção, nos limites deste texto de apresentação, de cravar uma crítica histórica acerca da leitura sobre a realidade brasileira que faziam as organizações armadas, e precisamente que fazia a ALN, é importante observar que a luta guerrilheira nas cidades foi proporcionada pela dinâmica insurgente que tomou o movimento de massas no país a partir de 1968, com as combativas lutas protagonizadas pelos estudantes e as greves operárias daquele ano. Isso não aconteceu no campo, onde as lutas foram arrefecidas desde o golpe de 1964, e por isso, talvez a pergunta do jornalista cubano faça muito sentido para um balanço histórico da linha política e do programa da ALN. A leitura da guerrilha urbana como elemento estratégico naquele momento da luta de classes no Brasil, como de uma forma ou outra propôs a VPR com a “Noite de São Bartolomeu”, poderia ter produzido, como efeito, o avanço das condições do biênio insurgente de 1968-69 nas cidades, quando a ditadura foi abalada pela luta armada e de massas ao ponto do imperialismo norte-americano admitir a queda do regime, possibilitando um cenário para que as lutas sociais no campo e as contradições objetivas e subjetivas da luta de classes produzissem o momento para avançar com a guerrilha rural, dando o passo fundamental na escalada da guerra revolucionária e criando, dessa forma, as condições para a construção de um exército revolucionário de libertação através da unidade operária e camponesa, para derrubar com a violência revolucionária do povo em armas o regime dos generais e abrir caminho ao socialismo no Brasil.
Após as quedas de Marighella e Toledo, a ALN seguiu heroicamente sua saga guerrilheira até 1974, havia perdido também Eduardo Collen Leite, o Comandante Bacuri, que entrou para a ALN após dissolver a REDE (Resistência Democrática) e tinha sido responsável pelas ações de captura do cônsul do Japão Nobuo Okuchi (em conjunto com a VPR e o MRT) e do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben (em conjunto com a VPR), no primeiro semestre de 1970. Preso em agosto, Bacuri foi assassinado em 8 de dezembro de 1970, após longos 109 dias de resistência heroica no calvário dos centros de tortura da ditadura.
Na terceira e última fase da ALN destacam-se nomes como Ana Maria Nacinovic, Carlos Eugênio da Paz, Aurora Furtado, Maria do Amparo Araújo, Ronaldo Mouth Queiroz, Marcos Nonato da Fonseca, Antônio Carlos Bicalho Lana, Alexandre Vannucchi Leme, Hélio Pereira Fortes, Alex de Paula Xavier, Iuri Xavier, Luiz José da Cunha e muitos outros valorosos combatentes. Esses dois últimos seriam responsáveis por importantes balanços e formulações da ALN, incluindo o documento “Política de Organização” e o balanço histórico da ALN escrito por Iuri, que recuperamos para incluir neste livro. É uma fase marcada também pelo esforço de coordenação e solidariedade entre as organizações, que tentavam sobreviver mesmo sob uma repressão brutal. Além da experiência da Frente Armada, em um exemplo de iniciativa para superar o sectarismo e a fragmentação que marcaram o período, a ALN sob o comando militar de Clemente fez diversos esforços para apoiar as Forças Guerrilheiras do Araguaia e manteve um acordo de cooperação com o PCdoB, que iria incorporar, por sua vez, a Ação Popular Marxista-Leninista (APML). No fim de 1970, a Frente Armada planejou a chamada “Quinzena Marighella”, um conjunto de ações armadas que incluía um múltiplo sequestro para libertar cerca de 400 revolucionários presos e marcar 1 ano do assassinato de Marighella, mas sofreria a baixa do seu comandante, Toledo. O “Velho”, como também era conhecido Joaquim Câmara Ferreira, era o principal articulador da Frente, foi assassinado em uma emboscada do DOPS em 23 de outubro de 1970, e a quinzena acabou não acontecendo. A VPR então, assume sozinha a captura do embaixador suíço Giovanni Bucher, e sob comando de Lamarca, a “Operação Joaquim Câmara Ferreira” na virada para o ano de 1971, consegue libertar 70 presos políticos que seguem para o Chile. Mas a partir daí, a tática dos sequestros havia se esgotado. As organizações que vinham se coordenado através da Frente e realizando dezenas de ações conjuntas, incluindo o campo de treinamento no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, também com o comando de Lamarca, além de diversas expropriações, sequestros, propaganda armada e justiçamentos, inclusive inovadoras ações de expropriação para a distribuição de mantimentos em favelas e o justiçamento de Henning Albert Boilesen em 1971, pela ALN e MRT, vão tendo seus quadros e dirigentes sequestrados e assassinados pela repressão, a exemplo de Mário Alves (PCBR), Devanir José de Carvalho, Aderval Alves Coqueiro e Joaquim Seixas (MRT), a “Chacina de Quintino” contra a VAR-Palmares e a Operação Pajussara na Bahia, que mataria Iara Iavelberg e depois Lamarca e Zequinha Barreto, já então no MR-8, em setembro de 1971, além de milhares de presos e exilados, e a partir de 1972 boa parte das agrupações armadas vão deixando de ter capacidade operativa e algumas deixam de existir, em paralelo, outros grupos vão iniciando um processo de “autocrítica” da luta armada, como a Ala Vermelha, saída do PCdoB. A ALN lutou até o último combatente e deixou de existir de fato só em 1974, quando também caía a Guerrilha do Araguaia, mas a ditadura ainda seguiria matando revolucionários, como na Chacina da Lapa, em dezembro de 1976, que vitimou parte do Comitê Central do PCdoB, e até mesmo o PCB, que manteve sua posição contra a luta armada, teria dez dos integrantes do seu Comitê Central assassinados entre 1974 e 1975.
Por muito pouco, a ALN não conseguiu efetuar o que seria o ato de justiça mais simbólico desse período, o carniceiro e delegado do DOPS, Sérgio Paranhos Fleury, foi atingindo por um tiro de raspão na orelha dado pelo Comandante Clemente, em 1971, após descobrir uma armadilha malsucedida tramada pelo “cabo Anselmo” em um ponto para uma suposta conversa entre a ALN e a VPR. Fleury morreria em um 1º de Maio, alguns anos depois, em 1979. O legado da ALN ficou registrado também em sua impressa clandestina, com publicações diversas, como o seu órgão central “O Guerrilheiro”, que tem todos os seus textos principais publicados aqui, o jornal de massas “Venceremos”, a publicação da ALN da Guanabara “Ação”, entre outras. O internacionalismo foi outra marca importante da ALN, com uma rede guevarista de militantes realizando tarefas entre a América Latina e a Europa, e uma relação intensa de apoio e conflito com o governo revolucionário de Cuba, que desenvolveu com a organização de Marighella e Toledo uma política oficial de apoio no Brasil, ou mesmo em um processo inicial de relação com a República Popular Democrática da Coreia, que não chegou a vingar pelas dificuldades logísticas. A organização também enviaria militantes para contatar o Partido Pantera Negra nos EUA, que tinha em Marighella e no Minimanual uma importante referência. Além da atuação brutal da repressão, a ALN também enfrentou processos internos mais ou menos tensos, da organização saíram agrupamentos menores e rachas em diferentes momentos como o M3G (Marx, Mao, Marighella e Guevara) no Sul, a Frente de Libertação do Nordeste, a Tendência Leninista da ALN no exterior e o Movimento de Libertação Proletária (MOLIPO), a partir da ruptura de um setor universitário que fez treinamento militar em Cuba. O que a ALN, seus mártires e sobreviventes, assim como, o curto, mas efervescente período de guerra revolucionária no Brasil nos ensina, é principalmente a necessidade da decisão revolucionária, da dedicação plena à causa da libertação e da emancipação popular. O profundo anti-imperialismo da ALN tem uma atualidade fundamental nessa etapa em que os EUA agoniza e afunda, mas mantêm sua condição de inimigo principal da humanidade. Deste livro que dedicamos à trajetória da organização e seu fundador, Carlos Marighella, o “Preto”, como era carinhosamente chamado pelos combatentes, podemos tirar como conclusão a vigência e atualidade do programa da ALN e sua estratégia para a Revolução Brasileira, além dos ensinamentos para os novos tempos de barbárie capitalista e do neofascismo que impõem novas formas de acionar revolucionário sobre os escombros da política de conciliação, do reformismo e do liberalismo que domesticaram e acovardaram a esquerda brasileira. A ALN nos ensina que uma linha de massas combativa e revolucionária deve ser necessariamente acompanhada por uma linha político-militar adequada em cada período da luta em nossa realidade necessariamente dialética, e que precisamos novamente ter a clareza que só haverá socialismo com revolução e que nenhuma organização é realmente revolucionária até que se coloque e resolva os problemas do aspecto violento e militar de sua prática política. A atualidade da revolução socialista e da libertação do nosso povo depende sempre, como disse Marighella para Conrad Detrez, de “que outra mão se levante e outra voz reentoe o canto de guerra”.
Por fim, queremos agradecer especialmente pelo apoio ao longo trabalho de pesquisa desta série ao companheiro Ivan Akselrud Seixas, ex-preso político e guerrilheiro do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), ao querido e sempre solícito Mário Magalhães, ao veterano da ALN e professor Wilson do Nascimento Barbosa, a Maria Cláudia Badan, pesquisadora da ALN e ex-companheira do saudoso Comandante Clemente, as equipes do Brasil: Nunca Mais e do Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa, além de todas os demais companheiros e companheiras, que nos ajudaram de alguma forma no trabalho deste livro e da Coleção Pensamento Marighella.

-
Por que Resistir à Prisão – Carlos MarighellaR$52,00 -
O Guerrilheiro – Ação Libertadora Nacional – ALNR$56,00 -
Rondó da Liberdade – poemas de Carlos MarighellaR$30,00 -
Minimanual do Guerrilheiro Urbano – Edição EspecialR$39,00 -
Pensamento Marighella – Volume IIR$66,00 -
Pensamento Marighella – Volume IR$57,00











