
Artigo publicado como prefácio da 2ª edição do livro “Lamarca – Ousar Lutar, Ousar Vencer” (260 págs; 2025), escrito originalmente em 2021 e revisado em 2025.
A história das revoluções na América Latina tem uma galeria de heróis e símbolos considerável. Os nomes mais emblemáticos são do padre colombiano Camilo Torres, que largou a batina para se tornar um comandante guerrilheiro do Exército de Libertação Nacional da Colômbia, o líder dos Tupamaros uruguaios Raúl Sendic, o argentino Roberto Santucho, líder do Exército Revolucionário do Povo, o chileno Miguel Enríquez, comandante do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), os irmãos bolivianos Roberto “Coco” Peredo, Guido “Inti” Peredo e Osvaldo “Chato” Peredo, o nicaraguense Augusto César Sandino, o salvadorenho Farabundo Martí, os irmãos cubanos Fidel e Raul Castro, sem falar no argentino-cubano Ernesto “Che” Guevara.
No Brasil, há vários nomes a ressaltar. Luís Carlos Prestes, líder da primeira insurreição revolucionária comunista, Maurício Grabois, Mário Alves e Apolônio de Carvalho. Todos têm sua marca e tem seu valor, mesmo que se possa discordar de suas linhas políticas. Mas há nomes que nunca passam sem ser notados e discutidos fervorosamente. O nome de Carlos Marighella sempre exige atenção, principalmente por seu pioneirismo e ousadia, que provoca ódio extremo por parte da direita e controvérsias entre as correntes de esquerda.
O nome de Carlos Lamarca mescla muitas das características de cada um dos nomes citados acima e desperta uma fúria avassaladora por parte da classe dominante e dos opressores fardados de nosso país. O motivo é muito simples. Ele teve a ousadia de romper com a classe dominante e com as forças opressoras e repressoras. Isso nunca será perdoado pelos inimigos da Revolução social brasileira.
Carlos Lamarca, filho de um sapateiro pobre, nascido no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, teve uma carreira brilhante no exército nacional e poderia galgar postos mais altos se fosse acomodado ou se se dispusesse a ser mais um repressor, como vários de seus colegas de farda foram. Orgulhoso da carreira militar, serviu ao exército enquanto pode. Quando a história lhe exigiu uma definição, não teve dúvidas e rompeu com o exército dedicado a massacrar seu povo e foi servir às forças da Revolução brasileira como um soldado disciplinado, como deve ser um revolucionário.
Muito diferente de Carlos Marighella, que teve longa trajetória na militância comunista e na vida política do país, Lamarca foi privado de muitas escolhas e definições por ser um militar que ousou romper com o exército nacional e com o imperialismo dos EUA, que controlava e dirigia a ditadura imposta ao Brasil em 1964. Não pode conviver com sua família, que poderia ser atingida pelo inimigo sem escrúpulos e foi privado da convivência com seus filhos, que amava tanto.
Politicamente também foi tudo diferente entre esses dois líderes revolucionários. Marighella foi construído na luta política, se formou na teoria marxista, teve contato com lideranças mundiais e foi alçado à liderança do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e depois criou a sua Ação Libertadora Nacional (ALN).
Por seu lado, Carlos Lamarca teve que fazer escolhas imediatas, sem tempo para vacilações, e se formar politicamente ao mesmo tempo em que travava a luta mais difícil para um militante. Passou a ser o militante mais procurado do país e sua figura atraía vários ódios simultaneamente. Era odiado pela classe dominante do país, era inimigo declarado do imperialismo dos EUA, que sustentava a ditadura militar no contexto da Guerra Fria, e tinha a ira da cúpula militar do país por ser um exemplo a ser seguido.
A classe dominante investiu fundo na implantação da ditadura por ter interesse em destruir a organização popular e os direitos da classe trabalhadora. Por causa disso, Lamarca era uma ameaça de desarranjar todo o investimento feito pela burguesia nacional. Por ser militar, colocava em xeque o instrumento militar usado pela burguesia para o assalto ao poder e a implantação da sua ditadura. Por sua vez, o imperialismo via nele a liderança militar que faltava para a esquerda fazer sua Revolução armada no maior país do continente, que Washington acredita ser seu quintal e área de dominação inconteste.
A cúpula militar do país, dominada pela direita atrelada e a serviço do imperialismo dos EUA, via em Carlos Lamarca um péssimo exemplo para a oficialidade intermediária e uma grave ameaça de quebra da hierarquia, que sustentava a ditadura militar. Por causa disso, ele passou a ser o inimigo prioritário a ser abatido pela estrutura fascista das Forças Armadas do Brasil e do imperialismo, que as controla. Os 66 fuzis, pistolas e munição que saíram do quartel com Lamarca e seus companheiros não eram um perigo tão grande como o que representava a própria figura dele.
Outros militares passaram a ser participantes da luta contra a ditadura, mas nenhum deles se igualava à Carlos Lamarca. O Coronel Jeferson Cardin de Alencar liderou a Guerrilha de Três Passos no segundo ano da ditadura, mas era um militar da reserva liderando civis. O Major Joaquim Pires Cerveira também era um militar cassado pela ditadura, mas era também um líder de civis. Eram considerados perigosos inimigos para a ditadura, mas não serviam de exemplo para os militares da ativa, como era o caso de Lamarca.
Quando o campo de treinamento guerrilheiro implantado no Vale do Ribeira, em São Paulo, foi detectado, a ditadura descobriu que estava sendo comandado por Carlos Lamarca. Todas as forças foram deslocadas para localizar e aniquilar o inimigo mais ousado da ditadura. O campo de treinamento foi transformado em guerrilha e está aplicou a mais vexatória derrota ao exército da burguesia em todos os tempos. Todas as tropas utilizadas, todos os bombardeios com napalm e todas as atrocidades cometidas contra a população civil da região não foram suficientes para localizar e derrotar o agora líder guerrilheiro e seus combatentes nas selvas do Vale do Ribeira. Ao contrário, as forças da ditadura sofreram derrotas sucessivas e a desmoralização foi completa. O pequeno grupo de guerrilheiros comandados por Lamarca fez prisioneiros, derrubou um helicóptero, derrotou tropas do exército e da polícia militar, e driblou todo o aparato repressivo. Só restou ao exército derrotado colocar a culpa da derrota num sargento zeloso, que protegeu seus soldados do combate inútil.
De volta à cidade, Lamarca chegou a São Paulo e encontrou sua Organização, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que havia sido reorganizada por ele e outros importantes combatentes, muito atingida pela ação da repressão militar. Muitos quadros haviam sido abatidos ou capturados, outros haviam perdido contato devido às prisões, e a estrutura estava abalada. Lamarca foi abrigado pelo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), uma das organizações componentes da Frente Armada Revolucionária, que tentava articular uma ação coordenada entre as organizações de combate direto à ditadura.
A Frente Armada Revolucionária já havia agido na ação para impedir o assassinato de um dirigente da VPR, que havia caído preso e estava sendo muito torturado. E esse companheiro era Mário Japa, que sabia da existência ainda não detectada do campo de treinamento guerrilheiro do Vale do Ribeira, além de ser uma importante figura na resistência armada. A ditadura torturou ferozmente o dirigente da VPR, que não cedeu a informação ao inimigo. A Frente Armada Revolucionária organizou às pressas o sequestro do cônsul geral do Japão, em São Paulo, Nobuo Okuchi, para salvar a vida de Mário Japa. Em poucos dias, um comando da VPR, da Resistência Democrática (REDE) e do MRT foi formado, a estrutura física de manutenção do diplomata foi criada e uma lista de oito nomes de adultos e de quatro crianças foi redigida para exigir a troca pela vida de Nobuo Okuchi. Com todo esse esforço bem-sucedido, o campo de treinamento foi localizado por uma informação fornecida por um militante capturado no Rio de Janeiro.
O MRT ofereceu seus militantes para dar segurança ao líder revolucionário, seus aparelhos (casas de militantes transformadas em unidades a serviço da Revolução) e as condições de segurança para Lamarca fazer reuniões com os militantes e dirigentes da VPR e poder dirigir sua organização adequadamente. Primeiro, Lamarca foi abrigado no aparelho de Devanir José de Carvalho, o Comandante Henrique do MRT, que era também muito procurado pelo inimigo. Para não manter dois quadros muito procurados no mesmo local, Lamarca foi deslocado para o aparelho de Joaquim Alencar de Seixas, o Comandante Roque do MRT, menos visado pela repressão militar, pois ainda mantinha uma vida legal ao mesmo tempo em que atuava na linha de frente da luta armada.
A rotina de Lamarca nesse aparelho era muito tranquila. Ele só não podia sair de dentro de casa, pois a vizinhança poderia reconhecer o líder revolucionário, mas tinha condições de ler muito, escrever muito, estudar o marxismo, pensar nos caminhos da Revolução e fazer reuniões da Frente Armada Revolucionária e da VPR com a máxima segurança. Desde que rompeu o cerco no Vale do Ribeira, Carlos Lamarca ficou em São Paulo e só foi deslocado para o Rio de Janeiro oito meses depois. Estava preocupado com a fragilidade de sua organização e queria participar diretamente de sua reestruturação. No começo de novembro de 1970, um comboio de três carros cheios de militantes do MRT e da VPR conduziram Carlos Lamarca e Iara Iavelberg para o Rio de Janeiro. Dois dos carros eram do MRT e o que conduzia Lamarca era da VPR, dirigido pela Comandante Leda, Inês Etienne Romeu, aguerrida combatente, e um outro dirigente da VPR.
Lamarca participou da captura de embaixadores para libertar combatentes, triturados nas câmaras de tortura da infame ditadura, e escapou de vários cercos promovidos pelos organismos do terrorismo de Estado. A VPR lhe retirou o apoio depois da captura do embaixador suíço, comandada por Lamarca. Devido a isso, ele rompeu com a organização e passou a ser militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), foi transferido para a Bahia, onde supostamente teria melhores condições de abrigá-lo na zona rural e poderia organizar a luta armada no campo. Não foi bem assim.
O comandante Carlos Lamarca foi cercado e assassinado junto com seu companheiro José Campos Barreto, o Zequinha, nos arredores de Brotas de Macaúbas, região entre o Rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Zequinha Barreto também era uma lenda na esquerda brasileira, pois foi um dos líderes da famosa Greve de Osasco, que desafiou a ditadura no coração econômico da burguesia nacional. Ambos estavam doentes, famintos e extenuados quando foram alcançados pelas tropas da repressão. O relatório da chamada Operação Pajussara, que relata o cerco e as mortes dos dois combatentes, descreve a região como miserável e um terreno fértil para a “ação comunista”. Em outras palavras, reconhece que a burguesia apenas explora a classe trabalhadora, nada oferece para uma vida digna e que a “ação comunista” é a opção para os explorados de nosso país.
Lamarca – Ousar Lutar, Ousar Vencer é um livro que mostra, através de suas próprias palavras, a figura humana e grandiosa, além de grande líder revolucionário, que foi Carlos Lamarca. É uma figura que deve ser reverenciada pelas novas gerações de militantes e pessoas que querem entender o que é nosso país, tão explorado e sofrido, mas sempre em busca de sua libertação.

Por Ivan Akselrud de Seixas, jornalista, um dos fundadores do Núcleo de Preservação da Memória Política e coordenou o projeto Direito à Memória e à Verdade. Nascido em Porto Alegre, em uma família de militantes comunistas, é ex-preso político e guerrilheiro do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Foi preso e torturado com 16 anos no DOI-CODI de São Paulo, permaneceu encarcerado entre 1971 e 1976, tendo sua mãe e irmãs também presas. Seu pai, Joaquim Alencar de Seixas, guerrilheiro e dirigente do MRT, preso com Ivan após o episódio do justiçamento pelo MRT e ALN do empresário que participava de sessões de tortura, Henning Albert Boilesen, foi assassinado pela repressão em 17 de abril de 1971, após bárbaras torturas também no DOI-CODI.














