O IMPERIALISMO – CARLOS LAMARCA  

Texto recuperado e inédito, escrito por Carlos Lamarca em linguagem popular e acessível publicado no jornal Luta Camponesa, que faz parte das “Apostilas do Instrutor”, série de textos apreendidos pela Operação Pajussara e escritos entre junho e agosto de 1971, que foram utilizados para a formação de lideranças camponesas da base guerrilheira rural do MR-8 no sertão baiano, na área chamada de “Roraima” pela organização, localizada na região da Serra da Mangabeira e parte do Vale do São Francisco.

A gente se pergunta, muitas vezes, por que existe pobreza? Cada um explica de um jeito.  Muitos religiosos dizem que é porque Deus quis assim, mas muitos padres hoje também dizem que não é assim não. Então a gente fica sabendo que tem padre que não liga pra pobreza e tem padre que sabe que Deus sendo bom, não queria que houvesse pobreza. Os ricos e os militares dizem que sempre existiu pobreza, a ditadura deles existe para manter tudo como está. Os revolucionários, que estão do lado povo, explicam de outra maneira. É isso que vamos ver agora. 

É muito importante a gente saber o porquê das coisas. É o primeiro passo para a gente mudar essas coisas. Outra coisa é que a gente tem de saber quem está do lado da classe dos pobres e quem está do lado da classe dos ricos. A luta que se trava entre a classe dos pobres e a classe dos ricos, nós chamamos de luta de classes.

Nós sabemos que do campo saem os produtos para as cidades e das cidades venda as mercadorias para o campo. A gente vê que as mercadorias que vem da cidade são muito mais caras que os produtos do campo. É preciso a gente produzir muito mesmo para poder comprar algumas mercadorias. Por que é assim?   

É porque os produtos do campo: minérios, produtos da lavoura e da criação de gado, vão para as fábricas para serem transformados. Os donos das fábricas são homens ricos que se juntam e se organizam em grandes empresas, e são os que mandam no governo. O governo tudo faz para beneficiar os ricos, então o governo existe para manter a dominação da classe dos ricos sobre a classe dos pobres. Os ricos, que nós chamamos de burgueses, para terem mais lucros tudo fazem para que os produtos do campo sejam bem baratos, aí as fábricas deles compram essas matérias-primas que nós produzimos no campo e fazem as mercadorias. O governo atende os ricos e põe a polícia, o exército, a marinha e a aeronáutica em cima dos pobres para produzir barato. E ainda por cima cobra impostos pro pobre ficar ainda mais pobre e o rico ficar mais rico. Tudo isto é a dominação de uma classe sobre outra, a dominação da classe dos ricos burgueses sobre a classe dos pobres.       

Acontece que os ricos brasileiros se ligaram aos ricos lá de fora, e fizeram isso com a ajuda dos parasitas da nação em 1964. Eles grudaram os que eram a favor do povo e passaram a aumentar a exploração e era só o povo querer levantar a cabeça que vinha o tacão estrangeiro manobrado pelos miliares brasileiros. 

Os ricos lá de fora são mais ricos que os daqui. Eles combinaram de se juntar para explorar mais o povo brasileiro, e os ricos brasileiros gostaram porque ficam mais ricos. Os estrangeiros mandaram aviões, tanques, helicópteros e armas para os parasitas ficarem preparados para derramar o sangue do povo explorado. Os estrangeiros compram fábricas, terras e tudo mais bem barato, com a ajuda da ditadura dos ricos – a ditadura da classe dominante. Hoje dominam tudo e os ricos brasileiros são os testas de ferro dos estrangeiros, são como capatazes, mas ricos.     

Essa dominação da nação ligada aos interesses estrangeiros se chama imperialismo. O imperialismo é então a dominação da produção de outros países. O imperialismo domina as fábricas, as explorações de minérios, a energia e tudo mais. Outros países também são dominados pelo imperialismo, não é só o Brasil. Os norte-americanos são os que dominam, então nós dizemos que existe o imperialismo norte-americano. E os ricos brasileiros servem para este imperialismo.         

Pelo que nós vimos, quanto maior a miséria no campo, melhor é para os ricos, para o imperialismo. Se os preços dos produtos do campo fossem justos pelo trabalho feito, os lucros do imperialismo seriam menores e isto não interessa à ditadura que está a serviço do imperialismo.         

Nas fábricas também nossos irmãos operários são explorados, e o pouco que ganham vai par o aluguel, passagens e remédios. Muitos companheiros camponeses, cansados de sofrer, vão para a cidade procurar emprego. Como não conseguem, têm de morar nas favelas e vivem escorraçados pela polícia como se fossem bandidos, ou cachorro doido.

A solução é a gente se organizar agora no campo, como estamos fazendo nas cidades também, para lutar fazendo guerrilhas. Nós somos maioria, mas sem organização. Organizado, o povo é invencível, a história de outros povos ensina isto à gente. Os povos que se organizaram, aos poucos derrotaram o imperialismo e organizaram um governo popular. Não adiantou naqueles países o imperialismo destruir muita coisa, seus povos reconstruíram e terminou o sofrimento com as doenças, a miséria, a fome, o analfabetismo, acabou a exploração do trabalho dos seus próprios irmãos.

A miséria, a fome e a exploração só servem para dar lucros ao imperialismo. A essa ditadura só interessa o povo saber assinar o nome para votar nos homens escolhidos por ela.

Documento recuperado pelo trabalho de pesquisa do nosso Arquivo Comandante Leda – Inês Etienne Romeu, com fonte original no Arquivo Nacional.

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