
Com esta primeira publicação inauguramos nosso projeto editorial militante, uma coletânea produzida de forma autogestionária, reunindo três textos que se relacionam e apontam para uma conclusão fundamental, a urgência do diálogo entre programas que se complementam, o anarquismo e o anticolonialismo.
Uma das chaves históricas para entender essa necessária síntese que chamamos aqui de Anarquismo Anticolonial é a derrota da revolução e guerra civil espanhola (1936-39). Uma das maiores derrotas da história tanto para proletariado e os povos do mundo, quanto possivelmente, a maior de todas para o anarquismo internacional e o programa revolucionário socialista e autogestionário. Entre os debates travados durante a guerra e a revolução na Espanha e a disputa entres as diferentes posições anarquistas sobre o processo revolucionário, Camilo Berneri, intelectual e militante que comandou o destacamento internacional de anarquistas italianos que ficou conhecido como Batalhão da Morte, ou Batalhão Malatesta, pontuava em uma carta aberta dirigida à então ministra Federica Montseny (Guerra di Classe, abril de 1937) sua oposição à participação da CNT/FAI no governo republicano e que o triunfo da guerra revolucionária contra o franquismo só poderia acontecer através de uma estratégia combinada de apoio ativo às lutas de libertação e guerras coloniais no norte da África e demais países árabes, especificamente à rebelião anticolonial pan-islâmica no Marrocos, e uma guerra de guerrilhas, capaz de vencer tanto o fascismo quanto a bolchevização no território espanhol. E foi exatamente no Marrocos colonizado de onde as tropas franquistas conseguiram se reagrupar, operar e vencer a guerra com apoio das potências nazifascistas, impondo uma das maiores derrotas aos povos do mundo na história. Berneri, que se tornou mártir de guerra, assassinado por traidores comunistas, foi um intelectual de primeira linha que também escreveu um tratado sobre a distopia nazista – O Delírio Racista (1934) – e a despeito da sua má interpretação da proposta da Plataforma Organizacional de Makhno e Arshinov, se situava politicamente entre uma posição crítica ao colaboracionismo da direção da CNT/FAI e a defesa consequente e intransigente da revolução pelo grupo Amigos de Durruti, conseguindo sintetizar em suas reflexões da guerra e aguçada capacidade de crítica e autocrítica, que seria a traição da direção da CNT/FAI somada à incompreensão do anarquismo sobre as lutas anticoloniais e a necessária defesa e apoio à libertação dos povos colonizados, que levariam à derrota mais pesada da história para o anarquismo, seu último suspiro de massas e possibilidade de realização em grande escala da utopia socialista e libertária.
Passando da lição histórica e chegando aos dias atuais, após o período de declínio da influência anarquista sobre as lutas de massas, com uma presença menor, mas ainda sim com uma relativa importância em lutas por todo mundo, é preciso compreender o anarquismo como um conjunto de métodos forjados nas lutas de libertação e na resistência contra as formas de dominação, exploração e opressão, como um programa revolucionário “que luta com os homens tais como são, e constrói com as pedras que lhe proporciona sua época”, e não como uma ideologia purista ou “principista” deslocada das lutas concretas e da realidade dos povos oprimidos. A radicalização, a ação direita, a autonomia, a direção coletiva, a organização de base por fora e contra o Estado em oposição a tutela e a domesticação, como nas lutas combativas do povo negro contra o genocídio, o racismo e a brutalidade policial, a resistência dos povos originários contra o neocolonialismo, a resistência e luta pela libertação das dissidências sexuais, e as lutas autônomas da classe trabalhadora, dos camponeses pobres, das mulheres do povo e da juventude combativa contra a barbárie neoliberal, e mesmo os enfrentamentos contra o neofascismo nos países centrais carregam em si a influência direta ou os métodos revolucionários do anarquismo. Cabendo destacar as lutas atuais por autodeterminação, que assumem um caráter anticapitalista e colocam como perspectiva o autogoverno popular e o socialismo, como as guerras revolucionárias dirigidas por povos indígenas no México, que tem como principal referência o zapatismo, mas também para além dele, e a guerra de libertação dirigida pelo povo curdo e sua organização, o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), no norte Síria e fronteira com a Turquia que implementa o programa do confederalismo democrático, ecológico e autogestionário, com um importante protagonismo das mulheres.
Nos textos que seguem nesta pequena contribuição em formato de livro partimos da lógica que o nosso próprio projeto editorial se propõe como tarefa, contribuir para a formação e a propaganda, fazendo a necessária relação entre teoria e realidade, e mais especificamente entre teoria e prática revolucionárias. O primeiro texto, de Ryan Knight, tem um caráter introdutório e apresenta semelhanças e confluências a partir de elementos básicos das construções teóricas e programáticas de dois gigantes revolucionários, Mikhail Bakunin e Frantz Fanon, discutindo elementos como a violência revolucionária, o papel do campesinato e da burguesia nos processos revolucionários, a partir de textos como “Cartas a um francês sobre a crise atual” (1870), “Catecismo Nacional” (1866) e “Estatismo e Anarquia” (1873) do revolucionário russo, citados a partir da ontologia “Bakunin on Anarchism” organizada por Sam Dolgoff, e do clássico fanoniano “Os Condenados da Terra”, cujo título original em francês (“Les Damnés de la Terre”) é uma referência à letra do hino A Internacional (L’Internationale) escrita pelo anarquista francês e communard Eugène Pottier. Pontuando questões básicas e abrindo portas para o aprofundamento sobre o panafricanismo revolucionário e a teoria anticolonial e antirracista da dominação psíquica em Fanon, assim como, para o método de análise, que hoje, a partir da sistematização feita da obra de Bakunin pode ser chamado de materialismo sociológico.
O segundo texto, mais denso e fundamental para quem se interessa pelo tema do colonialismo, “Nacionalismo e internacionalismo na teoria e política anticolonial e pós-colonial” de Andrey Cordeiro Ferreira, aprofunda criticamente o debate acerca das propostas e formulações das teorias pós-coloniais e descoloniais, e discute a partir da ideia de colonialidade, da teoria do imperialismo, das diversas interpretações do processo revolucionário e do conceito de segmentaridade, as correspondências entre o internacionalismo, a teoria anarquista da revolução integral e o anticolonialismo.
Por fim, partindo da premissa de sempre relacionar teoria e prática revolucionárias, apresentamos o texto “A luta do povo negro e a emancipação da classe trabalhadora”, da Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil – FOB, com apontamentos sobre o programa do sindicalismo revolucionário para a luta do povo negro no Brasil, entendendo a escravidão, o genocídio e o racismo como pilares que estruturam o capitalismo e a dominação burguesa, e que é necessário combater tanto as concepções eurocêntricas que negligenciam a importância da maioria negra na luta de classes, quanto as posições “pós-modernas” ou “culturalistas” que eliminam da questão racial o antagonismo de classes.
Desejamos uma boa leitura e repetimos a indagação feita pelo revolucionário socialista vietnamita Ho Chi Minh, que antes de liderar o movimento anticolonial e anti-imperialista e as heroicas guerras de liberação contra franceses, japoneses e norte-americanos em seu país, havia viajado pelo mundo após embarcar em um navio para trabalhar como cozinheiro, se estabelecendo em Paris, logo após a Primeira Guerra Mundial, e perguntava de forma indignada em debates acalorados que teve com socialistas franceses: “Se vocês não condenam o colonialismo, se vocês não estão alinhados com os povos colonizados, que tipo de revolução vocês estão buscando?” (Problemas do Oriente, 1960).
Dedicamos esta publicação à memória do revolucionário anarquista e sindicalista nigeriano Sam Mbah, que foi dirigente da Awareness League (Liga da Consciência) e que nos deixou há exatamente 4 anos, em novembro de 2014, assim como, aos heroicos Basheyas, os guerrilheiros anarquistas africanos de Uganda que promovem a luta armada clandestina e a guerra popular contra o Estado, o capital e o colonialismo, e aos revolucionários pretos e presos políticos da supremacia branca estadunidense há 40 anos, da organização negra radical MOVE. Sejamos a fúria.
Editorial Adandé, novembro de 2018.